quarta-feira, setembro 27, 2006

O Silêncio do Mocho

O mundo calou-se precisamente quando eu precisava de lhe gritar vivamente. Virou-me costas. Deixou-me sozinho. Mostrou que é injusto. Se não, por que razão somos seres capazes de nos adaptarmos, de aprender, de corrigir os nossos erros, se, no fim de contas, ninguém acredita verdadeiramente em nós? Perguntava Sparks, «será possível que um homem venha a sofrer uma transformação radical? Ou será que o carácter e os hábitos encerram as nossas vidas dentro de fronteiras inamovíveis?» Defendo a primeira premissa com a força do meu carácter, com a experiência da minha dor. É possível que essa transformação suceda, que o homem vislumbre para lá das suas pseudo-convicções que estava errado, equivocado, enganado. Julgamos sofrer quando concluímos que alguém nos enganou, faltando à verdade, subvertendo-a, ou omitindo-a, até. Contudo, muito poucos conhecem o verdadeiro alcance do significado da palavra ominosa que é o «engano». Vivemos com o receio que nos enganem, que nos deixem de um momento para o outro a troco de algo ou de alguém, sem nunca nos apercebermos que o mais perigoso e assustador não é esse risco, essa ameaça última que nos atormentará inapelavelmente até ao derradeiro dia das nossas vidas. Esta consciência existe – ou melhor, a verdadeira consciência não existe – porque raramente nos apercebemos que construímos a nossa vida, o nosso passado, as nossas vivências, alicerçando uma forma de ser e de estar que pode, perfeitamente, estar equivocada. Sim, equivocada! Por outras palavras, é quase irreal pensarmos que podemos passar anos das nossas vidas a crer que somos alguém que, no fundo, nunca fomos e jamais poderemos vir a ser, um dia. Quer essa constatação seja positiva ou negativa. O que é certo é que corremos o risco de nos enganarmos a nós próprios, no nosso âmago mais genuíno, na nossa mensagem, na nossa imagem alheia. Enganámo-nos por motivos diversos, por explicações que nem sempre são enxergáveis até ao momento da confrontação. Momento esse que se reveste de revolta, de rotura, de raiva perante o nosso «eu» criado. Pior, quando nos apercebemos inequivocamente que não nos mostrámos ao mundo como somos na realidade, que perante o nosso engano estivemos a dar aos demais uma parcela errada do nosso ser; que magoámos e sacrificámos sonhos conjuntos; que ferimos sem saber, julgando estar a fazer tudo o que estava ao nosso alcance para sermos e fazermos os outros mais felizes. Por muito difícil que seja compreender isto, a verdade nua e crua é esta mesma. Uma verdade como fogo, doentia, voraz. Começamos por descobrir dentro de nós capacidades e qualidades que julgávamos impossíveis, inexistentes, unicamente porque passáramos os nossos dias a esconder dos outros os nossos medos e os nossos complexos mais pueris. E quando a parte mais «fraca» de nós não é assumida, a mais «forte» acaba por ficar debilitada, por incrível que tal inferência possa parecer. Ao tentarmos mostrar ao mundo que somos «perfeitos», que não padecemos de pontos fracos, que somos aquilo que queremos, estamos, ao mesmo tempo, a mostrar a maior fraqueza possível de um ser humano que é racional: o complexo de sermos quem somos. Desde o momento em que procuramos esconder dos outros aquilo que nos magoa, fere, e fragiliza, estamos a condenar o nosso espírito a ser uma amálgama de sentimentos e de farsas. Não somos nós próprios. Somos «alguéns» consoante as necessidades mais prementes. Preparamos a nossa mente a não sucumbir perante o coração; fechamos portas e janelas; dotámos a inteligência da capacidade de reagir de determinada forma mesmo não sabendo porquê. Ou apenas pelo motivo de não revelarmos que somos humanos, débeis, fracos, tal como todos os demais. Por que razão isto acontece? Sei-o, mas não o escrevo. Digo-o, a quem me perguntar. A quem me aceitar. A mim, tal como sou. No silêncio do mocho que me acolhe.

visitas