sexta-feira, setembro 29, 2006

Na realidade do sonho

Andar dançante. Não pares – caminhas para mim.
Trazes um vestido vermelho colado ao corpo, não tem mangas, e acaba ainda acima do joelho.
O teu cabelo é louro, de um amarelo vivo, comprido e fino. Cai sobre os teus ombros de forma melodiosa. Esses olhos que são claridade, com uma sombra azul sob as pálpebras inferiores, representam a chama ígnea que ilumina o teu rosto. As unhas estão pintadas de um escarlate apaixonante. Não pares. Por favor, caminha até mim… Abraça-me!

Passas por mim e não me vês. Para trás, deixas o teu odor doce e cruciante. Quando sei que não me podes ver-me, lanço um olhar fugidio e temeroso. Escondo-me. Porquê? Não... do quê: é da tua beleza ofuscante e ostensiva que tenho medo. Temo encontrar aquele olhar… Sentir-me-ia subjugado, inferiorizado pela aparência luminosa, carnal, que exsudas. Reconheço que não te mereço. Eu, uma reles criatura, possuidora de uma fealdade incaracterizável e perturbadora.

Não sou capaz de confessar o quanto te adoro; o quanto anseio o teu contacto, um gesto teu, uma troca tímida que seja. Suspiro. Sigo os teus passos, o rasto de sensualidade que deixas ao longo do caminho. Imagino-te na minha cama, no leito do amor etéreo que sinto por ti. Um sentimento desmesurado e que cresce abusivamente a cada dia que te vejo, a cada olhar que te lanço. Sinto-me tentado em dirigir-me a ti, talvez pedindo desculpa pela abordagem e... dizer-te, “olá”. Quem sabe até perguntar pelo teu nome… dizer-te o meu.
Perco-te de vista. Até amanhã.

Ali estás de novo. Não andas, voas por sobre umas nuvens diáfanas, e existentes somente na minha imaginação. A minha imaginação! Aquela em que te imagino nos meus braços, sossegada, confiante, segura. Prometo-te tudo isso e muito mais: a paz perfeita do meu amor por ti.
Cruzas comigo e tocas ao de leve no meu braço.
Arquejo ofegante, excitado, quase descontrolado.
Logo peço desculpa pelo contacto ofensivo e descuidado. Reages e dizes que a culpa fora tua. A tua voz soa cauta.
- Oh, não, não! Fui eu! Sim, eu…
- Mas…
- Se… se bem que a culpa até seja sua… aliás, da sua beleza, quero eu dizer…
Estou atrapalhado, ruborizado. Percebes e sorris com bonomia maternal.
- A culpa é minha, só minha! – Reitero. – São os meus olhos… ficam ofuscados, perdidos perante essa luz…
Arqueias levemente uma sobrancelha. Sentes o elogio.
- Conhece-me? – Perguntas.
- Claro!
Respondi sem pensar, movido pela emoção. Ah, que imprudente fui!...
- Vejo-a passar por aqui todos os dias… – acrescento.
Desta vez, não reages. Porquê?
- Não acho boa ideia – dizes, por fim, na tua própria voz.
- Porquê...?
- Um dia verá que não existo.
Atiro o pescoço para trás.
- Como?!
- Eu não existo. Sou uma criação sua. Por isso, não acho boa ideia que me siga, assim… Não devemos viver obcecados pelas nossas próprias criações. É perigoso.
- Eu não v…
- Acredite em mim. Não se esqueça, provenho do seu subconsciente mais inconformado.
- Quer dizer que já não posso amá-la? Nem por uma vez, mais?
- É esse o seu desejo mais profundo?
- Sim.
- Foi para isso que me criou?
Pára! Confundes-me…
Penso.
Não sei o que responder. Para mim, é tudo incompreensível.
- S-sim – digo, por fim, mentindo.
- Vamos.

Dás-me a mão e arrastas-me para um quarto que, surpreendentemente, identifico como meu. «Como fora possível?» Desligo-me desse pormenor e vivo o momento único da minha vida: a perfeição. Possuo-te com a alma até que, perante tanta energia onírica, acabas por evolar-te, pura e simplesmente. Fico sozinho, deitado na minha cama vazia.

Tentarei encontrar-te, nos dias seguintes, sem sucesso. Desapareceste da minha vida com a mesma voluptuosidade com que apareceste. Jamais te compreendi, verdadeiramente. Não sei se exististe ou não. Se te conquistei ou não. Se te amei ou não. Não sei de nada, e nada me interessa, para além de uma certeza que me afaga... a de que o melhor da vida é mesmo sonhar!

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